Gospel Irônico (2026)
Para um artista pequeno todo disco é o primeiro disco (e as vezes o último).
Links para ouvir: https://onerpm.link/100173332154
Bandcamp: https://giancarlorufatto.bandcamp.com
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Nunca gostei de releases, muito menos de escrever releases. Normalmente o texto precisa apresentar o artista, uma trajetória junto dos motivos pelo qual o novo trabalho existe e você deveria ouvir. Mas a verdade é que se apresentar depois de mais de gravar uma dezena de discos é a pior parte de lançar um disco porque, para um artista pequeno, todo disco é sempre o primeiro disco (e as vezes o ultimo). Quando chega nesta etapa o artista (neste caso, eu) já ouviu as canções do álbum centenas de vezes e precisa da opinião de outras pessoas para se convencer a fazer algum alarde sobre a obra, exemplo:
“Rufatto surgiu no interior do Paraná no início dos anos 2000 gravando escondido sob o alterego de “Lo-fi Dreams”. Teve uma banda chamada Hotel Avenida e gravou mais de uma dezena de discos que pouca gente ouviu, acontece. Nunca teve muitas expectativas de se tornar conhecido, apenas continuou gravando enquanto sua geração e a geração seguinte foi parando pelo caminho. Seu novo trabalho se chama “Gospel Irônico”, um álbum essencialmente escrito sobre culpa e aceitação (pelo menos é o que o cantor acha que é) que abre com uma canção “anti algoritmo” sem refrões e com mais de 6 minutos onde o cantor descreve um dia comum vivendo em São Paulo - cidade que adotou recentemente. Se essa música chegar até você significa que seu algoritmo é um pouco melhor que os dos outros.” O álbum está disponível em todas as plataformas de Streaming.
Escrever sobre o trabalho alheio é mais fácil, escrever sobre suas decisões é sempre mais difícil, mas ajuda na aceitação de que as coisas são o que são e a culpa é totalmente sua se ninguém gostar. Gravar é a melhor parte de tudo. Fico pensando nas pessoas que escrevem um comando, uma frase num aplicativo de inteligência artificial e saem com uma música pronta achando que criaram algo. A pessoa eliminou a melhor parte do trabalho, a evolução pessoal, a frustração seguida de frustração, seguida da parte em que você se encosta na cadeira e ouve algo totalmente seu tomando forma. E eu nem sou totalmente contra IA, acho que dá para usar no processo de trabalhos chatos como editar planilha, mas na música é como deixar alguém passar de fase num jogo pra você. Para ser honesto, teve uma canção nesse álbum que eu tentei usar IA para fazer um slide choroso, mas ficou tão perfeito, tão majestoso que fiquei com vergonha de usar. A inteligência artificial mira e copia os melhores músicos deste mundo, não o músico que faz o que pode fazer, é mais difícil para os robôs copiar nossos defeitos pois eles são genuínos.
Sobre o álbum
Pelas minhas contas “Gospel Irônico” é o 13º disco que gravo (fora as dezenas de singles, EPs e o álbum com a banda Hotel Avenida) desde 2004. Tem 8 músicas porque durante o processo cheguei a conclusão que 35 minutos resolvia muito bem o objetivo, colocar mais músicas tornaria o disco cansativo. Ao longo do processo escrevi textos para cada uma das canções e estão no Substack com versões alternativas das canções que agora chegam ao streaming.
Comecei a rascunhar “Gospel Irônico” no final de 2024, reunindo canções sob o mesmo tema: culpa e aceitação. O título faz referência aos comentários divertidos que às vezes recebo sobre algumas canções que escrevi com títulos religiosos. Não, não escrevo canções religiosas, mas gosto de pensar que muitas falam do temor cristão e do mistério que faz as pessoas levantarem e viverem nesse mundo cada dia mais esquisito, se equilibrando em uma linha na esperança que exista uma recompensa no final dela. Então, muitas das canções neste álbum são histórias sobre pessoas que entenderam o sentido de tudo quando era tarde demais (ex: O livro da revelação é um capítulo da Bíblia, mas a letra é meio sobre “O estrangeiro” de Albert Camus). Para reforçar a ironia, a capa deste álbum é uma foto da cruz de neon verde de uma igreja de São Paulo, acho que não há nada mais irônico que isso.
Gospel Irônico é meu álbum mais consciente do resultado final, no sentido que não forcei a barra para escrever e gravar e encontrar sua sonoridade. Nunca me preocupei muito com a unidade dos meus discos, mas com o passar dos anos comecei a tratá-los como livros de contos, canções com personagens, tem mais a ver com Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu do que com a música contemporânea, apesar de ainda ser rock, folk, indie, lo-fi. Me agrada a ideia de ser uma pessoa contando uma história sob meus próprios meios. Além de mim, tocando todos os instrumentos, Igor Ribeiro criou um solo de sax para “São Paulo, sete horas da manhã”.
Gravar sozinho em casa com instrumentos baratos e em equipamentos antigos é libertador, mas também um tipo de loteria em que você tem uma ideia, um esboço em mente, mas quase nunca chega no resultado que você havia inicialmente imaginado. Você começa sem saber o que vai acontecer e muitas vezes não acontece nada, meu computador está cheio de rascunhos que não chegaram a lugar nenhum. Outras vezes você tem uma canção que soa muito bem tocando informalmente, mas que quando se dispõe à registra-la acaba se tornando um tipo de muro impenetrável. Você fica tentando encontrar brechas e formas de contornar o que não está dando certo até desistir ou ceder ao desejo da canção de se tornar o que ela queria ser. Neste álbum as canções me venceram e mostraram o caminho e as letras das canções foram moldando o clima.
Nunca fui um bom músico daqueles que sabem o que estão fazendo. Minha mão esquerda tem um problema motor que a deixa meio fora de controle, impossibilitada de executar acordes complicados e até alguns acordes básicos. Para completar, em 2022 quebrei dois ossos e agora consigo saber quando vai chover e esfriar. A dificuldade me levou a utilizar uma afinação diferente que se tornou “coisa minha”. Quando mudo a afinação da corda Mi (zinha) e dobro o Ré o som fica parecendo mais caipira e libera um dedo da minha mão para deslizar pelo braço com mais facilidade e que reflete diretamente em como as canções soam. Também raramente uso acordes inteiros e a maioria das coisas faço com dois dedos, o dedo anelar é reservado ao Dó e ao slide. O lo-fi é um segmento musical quentinho onde podemos esconder todas as nossas falhas pessoais ou empacotar tudo como opção artística. Acho que esses problemas físicos me empurraram para o indie, para o folk, para o universo das canções de melodias simples focadas nas letras. Se tocasse bem provavelmente tocaria AOR, tocaria Hall & Oates, covers de Steely Dan.
Eu não costumo realizar várias tomadas das gravações, não passo filtros, não uso autotune, deixo erros passarem se eles tiverem vida própria. Acho que coisas que sobram do ambiente tem tudo a ver com as letras que eu escrevo, um monte de canções sobre imperfeição não pode ser um cristal. Se você aumentar bastante o volume, consegue ouvir o carro passando, o cachorro latindo, um alarme rolando em algum lugar, acontece. Também amo a ideia de ainda utilizar um computador que comprei em 2003 que não sabe que ficou obsoleto pois há décadas não acessa internet (fica a dica: tire seus equipamentos da internet e eles nunca ficarão velhos). É como ser Punk enquanto os home estúdios caseiros viraram um grande Pink Floyd com os mesmos presets para produzir canções de 2 minutos.







