Gospel Irônico - parte 8
Da janela eu vejo tudo acontecer enquanto leio o caderno de obituários.
Sinal fechado,
automóveis solitários,
cantores populares amanhecem no karaokê do bar.
Da porta ouço canções, variam entre fugir, ficar
e desejar o mal pra quem afunda o nosso braço
na lama escura da manhã.
Da janela eu vejo tudo acontecer enquanto leio o caderno de obituários.
Três tiros na esquina, mataram outro homem que procurava latas, tinha fé na loteria1. Ninguém se importa, não é sobre você.
Passei os olhos em uma fotografia,
ontem uma mulher que eu conhecia também morreu.
Dez anos e uma cidade inteira nos separavam, mas ali ela continuava a mesma, a mesma. “Hey, meu bem, quem mudou fui eu”.2
Lamento, eu não acordei a tempo e o mundo seguiu em frente sem você,
se esquivando de qualquer responsabilidade por todas as mentiras que disseram, me disseram, lhe disseram que iria acontecer.
Na TV um homem branco e velho fala balançando as mãos como se fossem cobras3, brincando com o futuro alheio simplesmente porque pode, porque assim vai escapando de encarar o fogo,
o fogo queimando tudo ao seu redor.
Hey, meu bem, não é culpa de ninguém,
estamos todos cansados
e tremendamente domesticados
e o silêncio é o nosso jeito de aceitar o que temos
e o que ainda vamos ter de perder.
Hey, meu bem, ninguém vai te culpar por desejar fugir,
ninguém vai se rebelar.
Escrevi esta canção em 2017, mas nunca havia gravado de fato, só umas experimentações com um gravador velho. Também não sabia muito o que fazer com ela, era uma letra enorme listando um monte de coisas que aconteceram enquanto estava indo trabalhar do ABC paulista para São Paulo via avenida Cupecê, Jardim Miriam. Era o Auge do governo Temer, todo dia absurdo novo nos preparava para o pior que viria nos anos seguintes, Bolsonaro, pandemia, milhares de mortes, enfim.
Ano passado essa canção voltou pra mim bem quando comecei construir a ideia de escrever um disco novo, estava procurando uma canção sobre estar cansado de viver momentos históricos, só queria um dia comum, passou, acabou. Mas desde então grava-la tem sido uma tarefa sem fim (estou na versão 15 19 20), como faz para preencher uma música de mais de 6 minutos sem esvaziar o conteúdo da letra? Gravar está cada dia difícil, o tempo cada vez mais curto e minha mão esquerda está cada dia pior, quando chove o metal dentro dela arde.
“São Paulo, sete horas da manhã” vai abrir Gospel Irônico.





